Gisele Noll – Doutorado Sanduíche em Portugal

Entre outubro de 2018 e março de 2019, a doutoranda do PPGCom Gisele Noll esteve na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, em Portugal, em um doutorado sanduíche para aprofundar seu estudo de materialidades da comunicação aplicada ao assistente de voz da Google Home. Sob orientação do professor Manuel Portela, do Doutoramento de Materialidades da Literatura da Faculdade de Letras de uma das mais antigas universidades do mundo, Gisele conta que a experiência trouxe novos aspectos teóricos à pesquisa, além de um novo olhar sobre o empírico. “Para mim, o sanduíche é sobre crescimento, da pesquisa e da pessoa que faz essa pesquisa. É tempo de amadurecer em diversos aspectos”, analisou a discente, que contou mais sobre a experiência para o Blog PPGCom.

A escolha do programa

“Escolher uma universidade que possa te receber para um sanduíche não é um processo fácil, porque tem que ser uma busca sobre o que aquele professor ou programa pode contribuir na pesquisa. Eu dei sorte porque outra estudante do PPGCom já tinha ido para Coimbra estudar com o Portela, então mandei um e-mail para ele, falei da pesquisa e perguntei se ele me aceitava. Pode parecer estranho em um primeiro momento fazer o estágio doutoral no exterior com um professor da Literatura, por isso é importante saber o que você está buscando. Eu queria e precisava de mais referências sobre materialidades e materialidade digital.”

O novo ambiente

“Quando cheguei, metade do semestre já tinha passado, mas o Portela me colocou como ouvinte em duas disciplinas do Programa (Materialidades da Cultura e Materialidades da Literatura I) e em uma aula dele na graduação (Arte e Media).  O mais interessante de tudo é que os textos trabalhados por eles são os que nós também trabalhamos, mas o viés é todo de materialidade e da dimensão do objeto na cultura, nas artes e na literatura. Lá, o ano acadêmico é entre setembro e junho. Por isso, só tive uma pausa entre Natal e Ano Novo e logo comecei a participar como ouvinte de mais duas disciplinas (Materialidades da Literatura II e Literatura, Artes e Media), sendo que uma delas (Materialidade da Literatura II) eu continuo participando por Skype, aqui do Brasil. Nesse período fora, apresentei a minha pesquisa em um evento semestral do Programa, chamado”Estado da Arte”, que é muito bacana, pois todos os doutorandos apresentam o seu estudo e os avanços de um semestre para o outro. Tive ao todo três orientações oficiais com o Portela, além das informais, quando nos encontrávamos em aula. Participei de seis conferências e workshops promovidos pelo Programa e fui em dois eventos maiores como ouvinte, um na UC e outro na Universidade Beira do Interior, em Covilhã.  Além disso, fiz uma resenha do livro The Metainterface: The Art of Plataforms, Cities and Clouds, de Christian Ulrik Andersen e Søren Bro Pold, que será publicado no próximo volume da Revista MatLit, do Programa de Materialidades da Literatura. Também combinei com o Portela de enviar mais um texto sobre assistentes de voz, resultado das orientações que tivemos ao longo do semestre que passei lá.”

O impacto na pesquisa

“Esse tempo fora passou muito rápido. Antes de eu ir, meu orientador aqui, André Pase, disse que a Gisele que foi não seria a mesma que voltaria. E essa é a mais pura verdade. Minha pesquisa cresceu muito, encontrei pessoas que trabalham com voz e materialidade da voz, vi trabalhos de artistas que criam obras a partir de assistentes de voz, o que trouxe um dimensão estética para o meu estudo, algo que eu nem sabia que precisava, além de um acréscimo ao âmbito teórico da tese e um outro olhar sobre o empírico. Eu estudava na biblioteca do CES (Centro de Estudos Sociais) porque a vista era linda e porque o ar condicionado dava conta do frio lá fora. Só tenho lembranças incríveis desse período, inclusive a de subir todo dia mais de 100 degraus para chegar na Universidade. De segunda a sexta eu trabalhava, li muito, ia nas aulas, conferências, mas também fiz amigos. Fui muito bem recebida pelo grupo de doutorandos de lá, entre portugueses e brasileiros, além dos professores”.

Dicas para quem busca o doutorado-sanduíche

“Para mim, o sanduíche é sobre crescimento, tanto da pesquisa quanto do pesquisador. É tempo de amadurecer em diversos aspectos, de compreender melhor quem nós somos e em como isso afetará o nosso estudo, o caminho que estamos trilhando. Para mim foi incrível. Digo a todos que têm interesse em fazer sanduíche: se preparem antes, escolham bem o professor que irá te receber, tenham em mente o que você quer daquele programa e daquele orientador, que tipo de contribuição esse período fora trará para o seu estudo. Não será fácil passar pelo processo de seleção, conquistar uma bolsa está cada vez mais difícil, mas não é impossível. Busque editais nos países de interesse, há muitas bolsas de outras agências/universidades pelo mundo. Se prepare para ler em inglês e outras línguas. Durante a estadia, viva o local que você está: vá na Universidade, em eventos, faça amigos, conheça pessoas, pesquisas, se relacione. Mas nunca, jamais, more perto do local de festas da cidades! Ou faça como eu e compre um tampão de ouvido… Antes de voltar, eu fui na Universidade, parei na frente da FLUC e prometi pra mim mesma que tentaria fazer o melhor na minha pesquisa. Fazer sanduíche é um privilégio, e colocar tudo isso na tese é o meu desafio agora. Na verdade, é um dever: é a melhor forma de agradecer a todos aqueles que possibilitaram esse estágio fora.”

Créditos:

Texto: Rodrigo Müzell
Fotos: Gisele Noll
Revisão: Samara Kalil
Edição no Blog: Leticia Dallegrave

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