Pierre Levy e o IEML

A significação linguística e os desafios da criação de uma língua intermediária entre humano e máquina foi o tema da visita do professor Pierre Levy à Famecos na sexta-feira, dia 13. O autor de clássicos da sociologia da comunicação como Cibercultura e Inteligência Coletiva deixou claro ,logo de início, em tom bem humorado, que não iria falar sobre fake news. Seu interlocutor, Dr. Juremir Machado, transmitiu a sugestão: “melhor do que tentar evitar [fake news], é construir um candidato de oposição crível”.

Com o assunto fake news superado, Levy explicou, desde o nível micro, o assunto no qual vem trabalhando há 25 anos: a significação linguística. Algo que vai muito além da linguagem e é nato ao humano. Segundo ele, usamos a língua e todos os seus componentes – fonemas, sujeitos, objetos, enunciados, frases – para descrever “pequenas cenas”, que podem se juntar e formar uma peça de teatro completa.

A referência, um aspecto fundamental do processo de significação, recebeu atenção especial de Levy. Conforme ele, é aqui que as ambiguidades começam a surgir, pois o entendimento completo de um enunciado precisa levar em conta a relação do que é dito com a realidade e os aspectos inerentes ao jogo da linguagem: memória e interação.

Tudo isso para chegarmos a pergunta de pesquisa do professor: seria possível formalizar matematicamente o processo de significação, de maneira a produzir um sistema que evite ambiguidades e facilite o processamento por máquinas? Para ele, uma vez que os computadores não compreendem a linguagem humana in natura, e necessitam da transformação de enunciados em linguagem de programação, a resposta é construir uma ponte entre as línguas.

Nesse momento você pode se perguntar: mas o Google Translate já não faz isso? De acordo com Levy, o Translate tenta fazer, porém, utilizando um método de suposição estatística, sem a capacidade de entender o que está traduzindo e, portanto, passível de falhas. Segundo o professor, as gigantes de Tecnologia da Informação (T.I.) acreditam que essa é a única forma de tradução possível. Pierre discorda, e, justamente por isso, ao lado de sua equipe, desenvolveu a Metalinguagem da Economia da Informação, no original, Information Economy Meta Language, que deu origem a sigla IEML.

A primeira etapa, de decodificação e recodificação da linguagem em uma base de dados, já foi realizada. O professor Juremir usou “etiqueta” como metáfora para explicar a maneira como o IEML irá preservar os significados distintos de palavras ambíguas. Levy apresentou a página web onde o conteúdo de sua pesquisa está presente. Como qualquer nova língua, leva um tempo para entender, mas o que ele procurou deixar claro foi a base semiótica presente na estrutura da língua, através dos componentes: signo, interpretante e objeto.

A próxima etapa do projeto inicia quando Pierre Levy voltar ao Canadá, no outono local: a disponibilização do conteúdo via web para uma construção coletiva das próximas etapas. O professor conta que recebeu apoio para 15 anos de pesquisa. Quem sabe, em breve, já teremos essa linguagem revolucionária em funcionamento e não seja mais necessário a presença de um tradutor em eventos como esse.

Créditos:

Redação: Marcell Marchioro
Revisão: Jéferson Cardoso
Publicação no Blog: Marcell Marchioro

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