Fatos Históricos » Contexto Histórico da Comunicação

Sobre Contexto Histórico da Comunicação:

Beatles, terremoto, Brasília, pílula e a vitória da vassoura em 1960

Beatles na formação original: Lennon, Harrison, Pete Best, McCartney e Stuart (Foto Divulgação)

Beatles na formação original: Lennon, Harrison, Pete Best, McCartney e Stuart (Foto Divulgação)

Começa a década emblemática de 1960. Aos primeiros acordes da banda de Liverpool The Beatles, ao mesmo tempo frenética, singela, harmoniosa e genial, a juventude radicaliza os paradigmas quebrados pela “geração perdida” dos anos 1920, entre as duas guerras mundiais, e parte para o “amor livre”, facilitada pela pílula anticoncepcional. Nos Estados Unidos, John Kennedy (1917-1962) se elege presidente. No Brasil, Juscelino Kubitschek (1902-1976) inaugura Brasília e Jânio Quadros (1917-1992) vence as eleições com emblema da vassoura.

A revolução social e de costumes protagonizada pelos anos 1960 é marcada por um literal estremecimento da terra. Em 22 de maio, terremoto em Valdivia, no Chile, provoca uma sequência de abalos sísmicos e tsunamis no Oceano Pacífico, com repercussão nos Estados Unidos, Havaí, Filipinas e Japão. O tremor foi tão grande e a abrangência da tragédia em área tão díspares que os números de mortos são calculados entre 2.000 e 6.000.

JK e Jango na inauguração de Brasília em 21 de abril de 1960 (Foto Divulgação)

JK e Jango na inauguração de Brasília em 21 de abril de 1960 (Foto Divulgação)

No Brasil, o clima era de festa em 21 de abril. A inauguração de Brasília era uma promessa da campanha eleitoral de JK, feita pela primeira vez em 4 de abril de 1955, na cidade de Jataí, no sertão de Goiás. O presidente nascido em Minas transferiu a capital federal do Rio de Janeiro para Brasília, dos palácios do Catete para o Alvorada, na data da execução de Tiradentes no Rio, em 1792, o Mártir da Inconfidência Mineira, que se rebelou contra a Coroa Portuguesa, durante o Vice-Reino do Brasil. As obras na Novacap (como era chamada) tinham começado em fevereiro de 1957 e em apenas três anos os arquitetos Lúcio Alves (1902-1998) e Oscar Niemayer (1907-2012) construíram uma cidade moderna e planejada na aridez do cerrado do Planalto Central, para deslocar ao interior o desenvolvimento do Brasil, restrito às proximidades da linha do Oceano Atlântico. O astronauta russo Yuri Gagarin, que viu do Sputnik que “a Terra é azul”, ao visitar Brasília na época, revelou sua a sensação: “é como chegar em outro planeta”.

“Olhai agora para a Capital da Esperança do Brasil”, disse orgulhoso Juscelino na inauguração. “Ela foi fundada, esta cidade, porque sabíamos estar forjada em nós a resolução de não mais conter o Brasil civilizado numa fímbria ao longo do oceano, de não mais vivermos esquecidos da existência de todo um mundo deserto, a reclamar posse e conquista.”
Prossegue o presidente, ao lado do vice João Goulart: “Esta cidade, recém-nascida, já se enraizou na alma dos brasileiros; já elevou o prestígio nacional em todos os continentes; já vem sendo apontada como demonstração pujante da nossa vontade de progresso, como índice do alto grau de nossa civilização; já a envolve a certeza de uma época de maior dinamismo, de maior dedicação ao trabalho e à Pátria, despertada, enfim, para o seu irresistível destino de criação e de força construtiva.”

Kubitschek sabia que naquele discurso estava escrevendo um capítulo da história do Brasil: “Deste Planalto Central, Brasília estende aos quatro ventos as estradas da definitiva integração nacional: Belém, Fortaleza, Porto Alegre, dentro em breve o Acre. E por onde passam as rodovias vão nascendo os povoados, vão ressuscitando as cidades mortas, vai circulando, vigorosa, a seiva do crescimento nacional.” E conclui emocionado: “Brasileiros! Daqui, do centro da Pátria, levo o meu pensamento a vossos lares e vos dirijo a minha saudação. Explicai a vossos filhos o que está sendo feito agora. É sobretudo para eles que se ergue esta cidade síntese, prenúncio de uma revolução fecunda em prosperidade. Eles é que nos hão de julgar amanhã.”

Rock e Política

The Beatles começou a se apresentar em pubs de Liverpool, na Inglaterra, e de Hamburgo, na Alemanha, naquele ano de 1960. Na formação inicial, eles eram cinco: John Lennon (guitarra rítmica), Paul McCartney (baixo e piano), George Harrison (guitarra solo), Stuart Sutcliffe (baixo) e Pete Best (bateria). O escocês Stuart saiu da banda em 61 para se dedicar à pintura, sua maior paixão, mas no ano seguinte morreu de hemorragia cerebral, em 10 de abril de 1962, aos 21 anos de idade. Pete Best é substituído por Ringo Starr em 62.

A quebra de tabus e rebeldia dos jovens nos anos 60 é facilitada pelo Enovid-10, a primeira pílula, lançada em 18 de agosto, nos Estados Unidos, que permitiu a “liberalização sexual”.

Kennedy vence as eleições americanas em 1960 (Foto Divulgação)

Kennedy vence as eleições americanas em 1960 (Foto Divulgação)

O vice-presidente Richard Nixon, do Partido Republicano, liderava as pesquisas para vencer as eleições e substituir seu companheiro de partido, o conservador e herói de guerra, general Dwight Eisenhower (1890-1969), presidente dos Estados Unidos de 1953 a 1961, eleito com uma campanha contra o “comunismo, Coreia e corrupção”. No entanto, o desempenho do democrata John Kennedy (1917-1963), jovem, bonito e carismático, no primeiro debate na televisão, em 26 de setembro, com uma audiência de 85 a 120 milhões de telespectadores, começou a mudar o rumo das eleições. Sua vitória nas urnas, em 8 de novembro, foi apertadíssima (apenas 0,2 de diferença), mas confortável no colégio eleitoral: 303 contra 219.

No Brasil, em 3 de outubro, realizou-se a eleição presidencial que colocou frente a frente o populista de direita Jânio Quadros (1917-1992), prefeito e governador de São Paulo, apoiado por coligação liderada pela UDN; o general legalista Henrique Teixeira Lott (1894-1984), candidato centro esquerda pelo PSD-PTB; e o personalismo popular do governador paulista Ademar de Barros (1901-1969). Num embate contra a “espada” do militar, a “vassoura” de Jânio, carregada pelo anticomunista que caminhavam com os passos cruzados, o paletó sujo de caspa, de falar pernóstico e que comia sanduíche de mortadela em público, conquistou 48% dos votos. No dia 28 de maio, ele estivera na PUCRS, a convite dos alunos da Faculdade de Ciências

Jânio: a vitória do populismo de direita em 1960 (Foto Memória)

Jânio: a vitória do populismo de direita em 1960 (Foto Memória)

Políticas e Econômicas. Na eleição, Lott ficou com 33% e Ademar, com slogan “desta vez vamos”, simbolizado pelo trevo da sorte, considerado pela população como o político que “rouba mas faz”, conquistou 19% dos brasileiros.

O vice-presidente, na época, era eleito individualmente e o trabalhista João Goulart (1919-1976), apesar de fazer dobradinha com Lott, se reelegeu com 42% dos votos. O vice de Jânio, o ex-governador mineiro Milton Campos (1900-1972), ficou em segundo com 40%. Gaúcho como Jango, o trabalhista dissidente Fernando Ferrari, candidato avulso, apareceu em terceiro com 18%. Sua grande vitória foi vencer Goulart no Rio Grande do Sul, mas sem projeção nacional.

 

Curso(s): , ,

Década(s) de referência: 1960

Ano de referência: 1960

Produção do material sobre este evento: Tibério Vargas Ramos

Dados cadastrados por: Marina Bellon

Post publicado em: 24 de maio de 2016