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Sobre Contexto Histórico da Comunicação:

Correio do Povo, o jornal influente do Estado em 1952

Em 1952, ano em que surgiu o Curso de Jornalismo da PUCRS, o Correio do Povo era o jornal de maior tiragem e mais influente no Rio Grande do Sul, desde o final do século 19. Figurava entre os quatro maiores jornais brasileiros, ao lado de O Estado de S. Paulo (1890), Correio da Manhã (1901-1974) e o Jornal do Brasil (1891- impresso até 2010), ambos do Rio de Janeiro. Também tinham importância nacional o Jornal do Commercio do Rio (1827) e o de Pernambuco (1919), Estado de Minas (1928) e Diário de Pernambuco (1825). Na época, a Folha de S. Paulo ainda não existia (surgiu em 1960 da unificação das Folhas da Manhã, Tarde e Noite, surgidas a partir de 1921) e O Globo (1925) do Rio foi popular e vespertino até 1962, sem força política.

Caldas Júnior, o fundador do Correio do Povo

O fundador do Correio, o sergipano Francisco Antônio Vieira Caldas Júnior, começou a trabalhar em jornal em Porto Alegre em 1885, aos 17 anos, como revisor do jornal do Partido Liberal, A Reforma. O periódico tinha sido fundado em 1862, por Gaspar Silveira Martins (1835-1901), deputado, senador, ministro e governador do Rio Grande do Sul durante o Império, que nasceu e morreu no Uruguai. Quando Dom Pedro II foi deposto e proclamada a República, o político parlamentarista se exilou em sua estância Rincón Pereyra e morreu aos 61 anos, em um quarto de hotel, em Montevidéu.

Na redação de A Reforma, Silveira Martins reconheceu o talento do jovem funcionário Francisco Antônio, e determinou que ele fosse promovido a noticiarista. Em pouco tempo, já era articulista. Em 1894, o jornalista recebeu no jornal uma informação que chegava a Porto Alegre com uma semana de atraso. O cadáver do pai dele, o desembargador Francisco Antônio Vieira Caldas (1846-1894), ex-chefe de polícia de Santa Catarina, havia sido encontrado martirizado e fuzilado na estrada de Biguaçu, no Estreito, em Florianópolis.

No ano seguinte, aos 27 anos de idade, Caldas Júnior conseguiu financiamento bancário de 20 contos e procurou outros dois jovens, Mário Totta, balconista da livraria Americana (mais tarde médico, hoje nome do hospital de Capão da Canoa, RS), e o tipógrafo negro Paulino Azurenha (nome de rua em Porto Alegre, no bairro Partenon), convidando-os para fundarem um jornal. Surgiu, assim, o Correio do Povo, em 1° de outubro de 1895, com quatro páginas, de 39 por 56cm, em seis colunas. A redação e tipografia foram instaladas no prédio 132 da Rua da Praia.

Porto Alegre tinha pouco mais de 60 mil habitantes, bondes puxados a burros e iluminação pública a gás e azeite. Os principais bairros eram Menino Deus, Partenon, Glória e Teresópolis. O Correio surgiu com a concorrência de outros seis jornais, os poderosos Federação (do governo) e Jornal do Commercio (apoiado pelo Partido Liberal que havia fechado A Reforma com a proclamação da República); mais O Dia, Deutsche Volkbsblat, A República e O Mercantil.

Breno Caldas em seu gabinete no Correio do Povo, nos anos 1950

Em seus artigos, desde o tempo de A Reforma, Caldas Júnior assinava com o pseudônimo Tenório, endereço telegráfico usado pelos correspondentes do Correio por decisão do filho Breno Caldas (1910-1989), que o sucedeu, enquanto as notícias foram enviadas por telégrafo ou telex, numa singela homenagem ao pai. Breno escrevia com caneta verde, também numa imitação do pai Caldas Júnior, que na sua época mantinha em sua mesa, no Correio, uma coleção de canetas coloridas para usar.

Dois anos após a fundação do Correio do Povo, Caldas Júnior conseguiu comprar uma moderna impressora Marinoni e a edição passou a ter páginas de 44,5 por 64 cm, em sete colunas. No ano seguinte, 1898, o Correio colocou no alto da primeira página o slogan de “jornal de maior tiragem e circulação do Rio Grande do Sul”, que permaneceu até seu fechamento em 1984. A tiragem no final de 1900 era de cinco mil exemplares e em 1903 chegou aos dez mil, com oito páginas, numa Porto Alegre de 75 mil habitantes, outros oito diários, 31 revistas e periódicos mais esparsos.

A edição de 10 de abril de 1913 do Correio saiu com tarja negra e a notícia da morte de seu fundador, no dia anterior, aos 44 anos. Caldas apresentou reação a uma vacina aplicada por um farmacêutico para prevenir surto de sífilis que ameaçava a cidade. Ele foi acometido de febre altíssima que acarretou, inclusive, a perda da memória. O editorial de despedida assinalava a trajetória de Caldas Júnior e o descrevia como um jornalista “acostumado a analisar os fatos, a pesá-los (…), profunda tolerância pelas opiniões alheias (…) e não impunha suas convicções”.  A viúva Dolores só faleceu em 1957.

A morte de Caldas Júnior originou uma luta pelo poder na redação, travada principalmente entre Emílio Kemp e Leonardo Truda, conta o jornalista e escritor Walter Galvani, no livro Um Século de Poder – Os bastidores da Caldas Júnior. A crise administrativa também repercutiu entre os herdeiros do jornalista morto. Em 1925, o jornal era dirigido por Fernando Caldas, filho do primeiro casamento de seu fundador, as dívidas da empresa se tornaram públicas e havia boatos de que o periódico seria vendido.

Em 1929, após as férias de verão, a viúva Dolores manda o filho Breno, de 19 anos, trabalhar na redação, como auxiliar. Naquele mesmo ano, em 26 de agosto, Fernando Caldas resolve se exonerar, mas não entrega carta de demissão à madrasta, proprietária do jornal, mas ao irmão recém-chegado à redação, filho do segundo casamento de seu pai. Disse ao garoto que não aguentava mais os boatos de que a empresa seria vendida.

Em razão da saída do irmão, o jovem passa, em um dia, de aprendiz a diretor da redação. Em 1935, durante as comemorações do Centenário da Revolução Farroupilha, Breno Caldas, aos 25 anos de idade, é nomeado, pela mãe, diretor da empresa e casa com  Ilza Kessler. No ano seguinte, demonstra seu empreendedorismo, ao lançar o vespertino Folha da Tarde, em formato tabloide, seguindo uma tendência de jornais de Buenos Aires e Londres.

Em 13 de dezembro de 1943, em plena Segunda Guerra, Breno Caldas compra o edifício Hudson, prédio utilizado até hoje pelo Correio do Povo, mas a mudança total da empresa para o local só se efetivou com o mundo em paz, em 13 de janeiro de 1946. A antiga Rua Paissandu passou a se chamar Caldas Júnior e o prédio recebeu a numeração 219. Naquele ano, aos 36 anos de idade, Breno dirigia um dos três maiores jornais do País, junto com O Estado de São Paulo, da família Mesquita, e o Jornal do Brasil, do conde Nascimento Brito, no Rio de Janeiro. Tornou-se um homem rico, proprietário de fazendas, pecuarista, plantador de arroz, criador de cavalos de corrida, velejador, com um barco de calado de alto mar ancorado no Haras Arado, em Belém Novo, à beira do Guaíba, onde morava. Nas baias de sua propriedade, criou cavalos mitológicos, como o invicto Stensoro, a crack Estupenda e o argentino Profundo, que ganharam corridas no Brasil e no exterior.

Em 18 de julho de 1953, Breno Caldas chamou ao seu gabinete o editor de cultura Osvaldo Goidanich, para informar que o poeta Mario Quintana (1906-1994) estava sendo contratado. “Para fazer o que quiser, quando quiser.” O tradutor de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, poderia traduzir telegramas em inglês e francês, mas a prioridade é que produzisse poemas, publicados na seção batizada como Caderno H, no suplemento cultural Caderno de Sábado. Manteve uma mesa, nos fundos da redação, de costas para uma janela, até o fechamento do Correio em 1984.

A notícia das apreensões do Correio do Povo e da Folha da Manhã, na madrugada de 20 de setembro de 1972, publicada na edição vespertina da Folha da Tarde naquele mesmo dia

Em 1964, o Correio do Povo apoiou o golpe militar contra o presidente João Goulart, como a maioria da mídia brasileira, à exceção da cadeia de jornais sensacionalistas Última Hora, criados por Samuel Wainer (1910-1990), por inspiração de Getúlio Vargas, para dar sustentação ao trabalhismo. Como toda a imprensa, em especial a nanica, mas também a tradicional, o Correio também foi censurado durante a ditadura. Sua edição de 20 de setembro de 1972 chegou a ser apreendida, porque Breno Caldas considerou um absurdo a proibição de divulgar que o líder do governo na Câmara dos Deputados, Filinto Müller, negava que houvesse censura no Brasil, denunciada pelo jornalista Ruy Mesquita, diretor do Jornal da Tarde e Estadão, em manifestação com repercussão internacional.

No início da noite de 19 de setembro, o censor Roque Chedid, um policial civil gaúcho cedido à Superintendência da Polícia Federal em Porto Alegre, chegou à redação com a determinação de que a palavra de Filinto Müller não podia ser divulgada. Breno Caldas considerou surreal a ditadura censurar seu próprio líder no Congresso e decidiu não acatar. Avisou que o Correio publicaria e foi jantar no Haras Arado, em Belém Novo, sua residência, como fazia todas as noites. Ele retornava ao jornal depois das 22h, sempre sozinho, dirigindo sua Mercedes cor creme, para acompanhar o fechamento da edição e rubricar com tinta verde autorização com a letra “B” ou vetar com a palavra “não” a publicação de matérias que eram separadas para avaliação superior por serem consideradas polêmicas, talvez inoportunas ou que pudessem ferir a linha conservadora do matutino.

Estabeleceu-se uma negociação tensa com o Ministério da Justiça. Ao voltar da janta, Breno acompanhou os últimos telefonemas e bateu o martelo: tanto os matutinos Correio do Povo quanto a Folha da Manhã, e também o vespertino Folha da Tarde publicariam a garantia do governo de que não havia censura no Brasil, denunciada pelo Estadão. A resposta de Brasília foi rápida: neste caso, os jornais seriam apreendidos. “Que fossem!”, reagiu o dono do Correio.

A Polícia Federal, encarregada pela apreensão, sugeriu que fossem publicadas edições simbólicas, para que a empresa não gastasse papel e não fosse necessário estabelecer uma logística para o recolhimento dos exemplares. “Nada disso, os jornais serão impressos com a tiragem prevista”, decidiu Breno Caldas. O Correio com cerca de 100 mil e a Folha Manhã com 25 mil. Os policiais solicitaram o empréstimo de caminhões para carregar os jornais a um depósito providenciado durante a noite. “Nenhum caminhão”, o doutor Breno manteve-se irredutível.

A notícia da apreensão do Correio do Povo publicada em 21 de setembro de 1972, o dia em que Breno Caldas ganhou a queda de braço com a censura durante a ditadura militar

Passava da uma hora da manhã quando caçambas sujas de cimento, requisitadas em obras, passaram a estacionar junto ao aristocrata edifício Hudson. Desta vez sem que ninguém mandasse, os operadores da máquina de empacotar montaram fardos no tamanho máximo, para que ficassem pesados, dificultando o trabalho dos policiais em carregar e levantar até a altura da carroceria, pois as caçambas não baixavam rente à plataforma, como os caminhões adaptados ao transporte dos jornais. Os poucos jornalistas e gráficos que se acotovelavam na expedição, para testemunharem o fato histórico da apreensão, vibraram ao perceberem a artimanha dos colegas do empacotamento. Pequenas guerrilhas assim foram travadas ao longo da ditadura militar, que durou 20 anos.

A ação na calada da noite ganhou repercussão internacional. Toda a operação teria de ser repetida para a apreensão da Folha da Tarde, em pleno meio-dia, no centro da cidade, podendo provocar uma manifestação popular de contornos imprevisíveis. A ditadura voltou atrás e o vespertino saiu com a notícia da apreensão das edições dos dois vespertinos da empresa e os motivos que geraram a determinação do Ministério da Justiça. Tudo o que foi vetado acabou sendo divulgado com repercussão muito maior. No dia seguinte, a mesma informação foi dada na última página do Correio e na Folha da Manhã. 20 de setembro de 1972 foi o dia em que Breno Caldas ganhou a queda de braço com o regime militar.

A queda

A última edição do Correio do Povo de Breno Caldas em 16 de junho de 1984

Breno teve empreendimentos vitoriosos, como a criação da rádio Guaíba, em 1957, que inovou o radiojornalismo, esporte e promoveu uma programação musical de classe especial. Outros discutíveis como a Folha da Manhã, que passou a circular em 12 de março de 1969 e fechou em março de 1980, diante da crise financeira gerada pela inauguração da TV Guaíba, um ano antes, em 10 de março de 1979. O canal 2 surgiu independente, sem entrar em rede. A Manchete tentou ter a Guaíba como filiada, mas Breno esnobou a rede carioca.

Empréstimo em dólar foi contraído para cobrir o custo dos equipamentos a cores importados e a instalação em sede própria, no Morro Santa Teresa, junto às outras emissoras de televisão. Uma valorização do dólar em mais de 30%, antecipada pelo Ministério da Fazenda a alguns empresários, mas não a Breno Caldas, multiplicou a dívida em uma noite e agravou a crise financeira da Empresa Jornalística Caldas Júnior, que já havia dando sinais desde o fim dos anos 1970, quando o Correio circulava soberano principalmente aos domingos, forte dos classificados e mais de 150 mil exemplares, distribuídos não só aos assinantes, mas também em venda avulsa nos supermercados, bancas e esquinas. Dizia-se, na época, que a maior alegria de Breno Caldas eram os meses com cinco domingos.

Em banquete no Palácio Piratini, na noite de 3 de fevereiro de 1983, quinta-feira, para comemorar a inauguração do Polo Petroquímico, o próprio presidente João Figueiredo perguntou a Breno Caldas, na frente do governador Amaral de Souza, como estavam as negociações das dívidas da empresa. O dono do Correio informou que se encontravam “bem encaminhadas” com a Caixa Econômica Federal.

No dia seguinte, sexta-feira, o Banrisul executou a dívida da empresa. Furioso, Breno redigiu um artigo com o título “Palmo e meio”, publicado na edição de domingo. Dizia que para o governador Amaral, de estatura baixa, lhe faltava “um palmo e meio em todos os sentidos”. O inferno estava apenas começando. O diretor de redação do Correio durante meio século, Adahil Borges Fortes da Silva, estava em férias e outra noite comentou com o editor de polícia Tibério Vargas Ramos, no final da edição, que não teria deixado o “doutor Breno publicar aquele artigo” se estivesse trabalhando. Depois da morte de Arlindo Pasqualini, Adahil era a única pessoa na empresa capaz de contrariar Breno Caldas; e ele ouvir.

O empresário começou a se desfazer de suas propriedades rurais para tentar manter o Correio. Os salários dos 2.400 funcionários, que eram pagos por quinzena, no caixa da empresa, em dinheiro, ou em contas bancárias no Banrisul e até no City Bank, começaram a atrasar. Gráficos e jornalistas promoveram uma greve de 56 dias entre dezembro de 1983 e fevereiro de 1984, considerada legal pelo Tribunal Regional do Trabalho por falta de pagamento de salário.

Para agilizar o empréstimo com a Caixa, Breno Caldas vai pessoalmente a Brasília. O Estado de São Paulo e o Jornal do Brasil também tentavam financiamentos especiais para a imprensa. O presidente João Figueiredo estaria disposto a atender a Caldas Júnior, mas jamais ao Estado e JB que faziam aposição explícita ao governo militar em sua última fase. A liberação da verba entravou.  Em pouco tempo, o fazendeiro-jornalista havia vendido quase todas as terras e gado para o empresário Renato Bastos Ribeiro para manter o Correio do Povo e a Folha da Tarde em circulação.

Em maio de 84, o aperto financeiro recrudesce. Não há dinheiro nem para comprar papel. A Corag (Impressa Oficial do Estado) empresta bobinas. O Jornal do Comércio começa a vender algum papel, mas somente mediante pagamento à vista, em dinheiro. No dia 16 de junho de 1984, sábado, Breno Caldas fez novo pedido de papel para o Diário Oficial: 100 toneladas para a edição de domingo do Correio do Povo. O diretor, que havia lhe atendido na ocasião anterior e foi repreendido, disse que agora só poderia liberar com ordem do governador Jair Soares; iria consultá-lo. Não foi liberado o papel, por falta de garantias de pagamento, impossíveis de obter em um fim de semana.

Sem papel, o Correio do Povo deixou de circular aos 89 anos, naquele 17 de junho de 1984, com 94 mil assinantes. A Folha da Tarde também fechou, no ano 49. Em 31 de agosto de 1986, o Correio ressurgia, agora propriedade de Renato Ribeiro, que acabou adquirindo também a Empresa Jornalística Caldas Júnior falida. Hoje pertence à Record, que manteve o matutino centenário, a rádio Guaíba e o canal de televisão se tornou uma repetidora da rede da Igreja Universal.

Breno Caldas sobreviveu cinco anos à queda de seu império, confinado ao Haras Arado, em Belém Novo, que lhe restou. Como um “herói shakespeariano”, como escreveu Carlos Reverbel em A Queda do Império, ele suportou um final de vida dramático, sem nunca perder a dignidade, até o último ato. Em 25 de maio de 1989, morreu de câncer no cérebro seu filho Francisco Antônio Kessler Caldas, de 51 anos. Jornalista formado pela PUCRS, o elegante Tonho Caldas, voz grave e sedutor, foi preparado a vida toda para ser o sucessor do pai. A amargura acumulada matou Breno Caldas em 10 de setembro daquele ano.

 

Curso(s):

Década(s) de referência: 1950

Ano de referência: 1952

Produção do material sobre este evento: Tibério Vargas Ramos

Dados cadastrados por: Milena Nyland

Post publicado em: 8 de maio de 2015