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Sobre Contexto Histórico da Comunicação:

Diário de Notícias vivia o apogeu em 1952

Redação do Diário de Notícias na década de 1950

O jornal Diário de Notícias foi lançado em 1° de março de 1925, um domingo, com a manchete principal: “Ocorreu uma tremenda explosão na ilha do Caju”. Em seu editorial, o novo matutino garantia que seu programa iria se basear em “seriedade na informação e honestidade na crítica”. E explicitava: “Fugiremos, deliberadamente, ao sensacionalismo com que, mais de uma vez, nestes últimos tempos, se tem confundido a noção de jornalismo moderno.”

Um dos tentáculos no Rio Grande do Sul dos Diários Associados de Assis Chateaubriand, o Diário vivia em 1952, quando da fundação do Curso de Jornalismo da PUCRS, seu melhor momento, dirigido por Ernesto Correa. Diz a lenda, porque não havia uma aferição segura de tiragem, avaliada por complicada e discutível análise da compra de papel, o jornal de Chatô em Porto Alegre iria superar, no ano seguinte, a circulação do Correio do Povo, que tinha como slogan “O jornal de maior tiragem e circulação do Rio Grande do Sul”, desde o final do século 19. Naquele ano de 53, do jornal promoveu concurso para a criação do Hino do Grêmio, para marcar o cinquentenário do clube. O jovem jornalista Wilson Müller, acadêmico de direito, convenceu o bedel da faculdade a concorrer para assegurar o sucesso da promoção. Quem era? O compositor da dor-de-cotovelo Lupicínio Rodrigues, que venceu com o verso imortalizado “até a pé nos iremos”.

Sede do Diário na Praça da Alfândega foi incendiada no suicídio de Getúlio Vargas em 1954

Entusiasmado com o sucesso do Diário, rádio Farroupilha e TV Piratini, Chateaubriand veio a Porto Alegre, em 1953, com uma ideia fixa: comprar o Correio do Povo, que já tentara no fim dos anos 20. O encontro dele com Breno Caldas, em seu gabinete, sentados em estofados de couro marrom, no primeiro andar da Empresa Jornalística Caldas Júnior, foi para o anedotário da imprensa. “Vim comprar o Correio”, Chatô apresentou claramente sua intenção. Breno respondeu-lhe não menos direto: “Para comprar o Correio, não precisa vir falar com seu presidente, basta ir a qualquer banca de jornal.” Assunto encerrado.

Depois da nova tentativa de adquirir o “róseo”, sem sucesso, o “Rei do Brasil” retornou ao apartamento em que se hospedara, ali bem perto da Caldas Júnior, no City Hotel, da família da esposa de Breno Caldas, e abriu uma champanha, na companhia de duas mulheres, conta o jornalista Celito De Grandi, no livro “Diário de Notícias – O romance de um jornal”, da L&PM (2005). O empresário queria compensar a viagem frustrada ao Sul.

O apogeu do Diário em 52 e 53 termina em um declínio abrupto em 54. Como a maior parte da impressa brasileira, com exceção dos jornais Última Hora, identificados com o trabalhismo, os veículos de Assis Chateaubriand em todo o País davam ênfase às denúncias de corrupção no governo de Getúlio Vargas e ao atentado a Carlos Lacerda, no Rio de Janeiro, que levaram o presidente ao suicídio em 24 de agosto. Apesar do Correio também ser conservador e contrário a Vargas, sua linha editorial era austera, como sempre o fora, e toda a raiva da multidão pela morte do presidente se voltou contra os Diários Associados.

A sede do jornal no Largo dos Medeiros, na Rua da Praia, entre o edifício de Di Primio Becker, na esquina, e o antigo cinema Rex (depois Guarani), no centro de Porto Alegre, foi incendiada, assim como as rádios Farroupilha, na Rua Duque de Caxias, alto do viaduto da Borges, e a Difusora, na Sete de Setembro. O Diário de Notícias só voltou a circular em março de 1955, com uma impressora emprestada, por ironia, por Breno Caldas, seu principal concorrente. Nunca mais foi o mesmo.

Capa do livro “Diário de Notícias – O romance de um jornal”, de Celito De Grandi

A decadência do DN é medida pelo maior furo que ele deu em toda a sua história: a morte do Papa Pio XII, em 9 de outubro de 1958. O Correio do Povo saiu com a informação de que o estado de saúde do pontífice era grave, mas continuava “instável”, com base em telegrama da agência AP, às 4h da madrugada. A manchete do Diário era a morte do papa. O próprio Breno Caldas conta este fato no livro-entrevista “Meio Século de Correio do Povo – Glória e agonia de um grande jornal”, de José Antônio Pinheiro Machado, da L&PM, para ilustrar o mito: “Se não deu no Correio, não é verdade”, foi a reação das pessoas diante da manchete do Diário, lembrou Breno.

O Diário e seus bravos jornalistas faziam de tudo para sobreviverem. Foi iniciativa do Diário, através do jornalista Say Marques, a criação da 1ª Feira do Livro de Porto Alegre, em 17 de novembro de 1955, que se tornou referência cultural da cidade há mais de meio século. Nos últimos anos, os jornalistas só recebiam vales nos fins de semana. Depois de longa agonia, o jornal circula pela última vez em 30 de dezembro de 1979, um domingo, como tudo começou.

 

Curso(s):

Década(s) de referência: 1950

Ano de referência: 1952

Produção do material sobre este evento: Tibério Vargas Ramos

Dados cadastrados por: Milena Nyland

Post publicado em: 13 de maio de 2015