Fatos Históricos » Contexto Histórico da Comunicação

Sobre Contexto Histórico da Comunicação:

Fecha Última Hora e nasce Zero Hora em 1964

O ano de 1964, marcado pelo golpe militar, repercutiu na imprensa de Porto Alegre, com o fechamento do vespertino Última Hora, determinado pelos militares. O diretor Ary de Carvalho (que mais tarde tirou o “de” do nome ao fazer um teste de numerologia) conseguiu reabrir o jornal um mês depois, na mesma redação, no prédio do cinema Rex, na Rua Sete de Setembro, próximo à Empresa Jornalística Caldas Júnior.

Capa da Última Hora de 2 de abril de 1964 (reprodução)

Fundada por Samuel Wainer em 12 de junho de 1951, no Rio de Janeiro, a rede de jornais populares e trabalhistas Última Hora chegou a Porto Alegre, com edição local, em 6 de maio de 1960. O vespertino, concorrendo diretamente com a Folha da Tarde, revolucionou a imprensa gaúcha, apesar de durar apenas quatro anos. A última edição circulou em 2 de abril de 1964, uma quinta-feira, um dia após o golpe militar. Trazia na capa a chegada do presidente deposto João Goulart a Porto Alegre, descendo de avião no aeroporto Salgado Filho, na companhia da esposa Maria Teresa e os filhos pequenos João Vicente e Denise. Jango foi até a prefeitura de Porto Alegre, onde se reuniu com o ex-governador Leonel Brizola e o prefeito Sereno Chaise e decidiu não resistir ao golpe, ao contrário da manchete, e viajou para o exílio no Uruguai. No sábado, 4 de abril, a redação do jornal estava definitivamente fechada.

A UH gaúcha foi uma escola de jornalismo, formando nomes de jovens promissores como Ibsen Pinheiro, Laila Pinheiro, Antônio González, João Souza, Darci Demétrio, entre tantos outros. Os jornais de Samuel Wainer tinham como apelo popular o esporte e a polícia, com um objetivo político atrás desta estratégia: defender e fazer proselitismo do trabalhismo, primeiro com Getúlio Vargas e depois com João Goulart. Representou uma inovação no sensacionalismo, no mundo, que normalmente se apresenta como apolítico, apesar disso representar, no fundo, uma posição política de prudente alienação. O ataque à sociedade só se dá, no sensacionalismo clássico da Inglaterra, Alemanha e Estados Unidos, por expor as mazelas da elite e do poder, o que também rende muitos processos.

Capa de Zero Hora de maio de 1964 (reprodução)

O diretor da Última Hora em Porto Alegre, Ary de Carvalho (1934-2003), acertou a compra do jornal com Samuel Wainer, que estava exilado na Embaixada do México no Rio, e passou a negociar com o governo militar a reabertura do impresso. Uma das exigências é que não poderia ter o mesmo nome. O diagramador argentino Anibal Bendati (1930-2009), professor na PUCRS e na Ufrgs, contou que, na época, projetou dois logotipos, um como Últimas Notícias e outro como Zero Hora, alternativas que lembrassem a UH. Quando o jornal foi lançado, em 4 de maio de 1964, Ary de Carvalho optou pelo nome Zero Hora e a mesa cor azul de seu antecessor.

Carvalho modernizou o novo jornal, com a construção do atual prédio na Avenida Ipiranga, inaugurado em maio de 1969, junto com a aquisição de uma impressora offset a cores. O investimento foi tanto que em 1970 ele teve de entregar o controle acionário para a TV Gaúcha, sua sócia, hoje RBS. Na falência pessoal, ele perdeu até o Chevrolet Malibu vermelho que possuía e estacionava na frente do jornal. Agora “Ary Carvalho”, sem o “de”, ele deu a volta por cima no Rio, reabrindo a Última Hora e depois convencendo Chagas Freitas em vender os periódicos sensacionalistas O Dia e A Notícia. A família de Chagas ainda tentou impedir a venda, alegando que o ex-governador carioca estava senil, mas a compra estava sacramentada. Como diretor de O Dia, Ary Carvalho revolucionou o conceito de jornalismo popular no Brasil, com uma linha de serviço e o caderno de esportes Ataque, que lhe rendeu, inclusive, o Prémio Esso de projeto editorial. Extra da Globo, Agora da Folha e Diário Gaúcho da RBS, sucessos em vendas, seguem hoje esta linha. Ary morreu em 2003 e sua empresa entrou em decadência.

 

 

 

Curso(s):

Década(s) de referência: 1960

Ano de referência: 1964

Produção do material sobre este evento: Tibério Vargas Ramos

Edição do material: Victória Amaro

Dados cadastrados por: Victória Amaro

Post publicado em: 22 de maio de 2015