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Sobre Contexto Histórico da Comunicação:

Getúlio se mata, PUCRS forma 1ª turma de Jornalismo

A manchete que Getúlio ditou a Samuel Wainer (Reprodução)

A PUCRS formou sua primeira turma de jornalismo em um dos momentos mais conturbados na política brasileira: o ano em que o presidente Getúlio Vargas se suicidou no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro. Nas aulas de Técnica de Jornal, ministradas pelo jornalista e professor Guilhermino César, no último semestre de 1954, foi analisada a capa do vespertino Última Hora, solicitada por Getúlio ao jornalista Samuel Wainer, que circulou na tarde de 23 de agosto. Na linha de apoio: Vargas: não cederá nem à violência, nem às provocações, nem ao golpe. A seguir, a manchete ditada pelo presidente: “Só sairei morto do Catete!” Na manhã do dia seguinte, às 8h, ele se matou com um tiro

no coração. O estampido ecoou no Palácio do Governo e acorreram ao quarto do presidente o general Caiado, a esposa Darci, os filhos Alzira e Lutero e o ministro Tancredo Neves. Ele ainda estava vivo. Depositou os olhos na filha, demonstrando emoção, e morreu. Ainda antes do meio-dia, saía a edição extra do jornal de Samuel

Última Hora se consagra: o presidente cumpriu a palavra (Reprodução)

Wainer: Na linha de apoio no alto da capa: Última Hora havia adiantado, ontem, o trágico propósito. No título ao lado do logotipo: Matou-se Vargas. A seguir, outro subtítulo: O presidente cumpriu a palavra. Embaixo, UH repetia a manchete do dia anterior: “Só sairei morto do Catete!” Em dezembro, no salão nobre do Colégio do Rosário, colavam grau os primeiros 47 jornalistas formados pela Faculdade de Filosofia, dirigida à época

pelo irmão José Otão.  O orador da turma foi o cronista da Folha da Tarde, João Bergmann, com 15 anos de profissão e que veio prestigiar o primeiro curso de Jornalismo do Rio Grande do Sul. Disse na solenidade:

Nas escadarias do Colégio Rosário, alguns dos formandos da primeira turma e os professore homenageados (Foto Anuário PUCRS 1954)

– Quinze anos de jornalismo inclemente, em sua maior parte anônimo e silencioso, deixaram em mim os perigosos sintomas de uma das mais graves doenças profissionais do jornalista, essa mesma que, segundo Émile Henriot, mata de tédio o profissional de imprensa, porque “tudo continua a lhe interessar, mas ele não crê em nada, porque viu tudo e nada mais o diverte”.

E acrescenta o orador:

– O conhecimento íntimo das fraquezas dos poderosos ou dos que pensam que o são; a visão interna da imensa vaidade humana, em todos os seus graus; a pesquisa contidiana dos erros mais crassos e mais grosseiros, acobertados e defendidos pela fama de quem os comete; o contato diário com o invulgar, que assim de vulgariza, a espera constante do inesperado; a narração costumeira do inarrável; a necessidade frequente de esfriar o calor dos fatosou de aquecê-lo do fogo fátuo das manchete e dos títulos gritantes; tudo isso que forma o inexorável de ontem para hoje do jornalismo, acaba do levar o profissional de imprensa a um ceticismo pessimista, que é um mal – e um grande bem, que devemos combater e, paradoxalmente, cultivar, porque nas refregas de sua profissão, é esta a doença – e a salvação do jornalista, a modéstia que o aflige e a vacina que o imuniza contra o facciosismo e a paixão, com que poderia contagiar milhares e milhares de leitores sãos.

O paraninfo foi o irmão Faustino João, numa justa homenagem por ser um dos maiores incentivadores da criação do curso de Jornalismo na PUC de Porto Alegre, proeza que muito o orgulho pelo resto da vida. Em seu pronunciamento, ele definiu jornalismo:

– O Jornalismo é a arte de simplificar a complexidade dos fatos e opiniões, tornando-os acessíveis à compreensão de um número apreciável de pessoas, fixando-os em um momento de sua trajetória, o que confere certa permanência à sua transitoriedade. E assim, na imobilidade de um momento, neles imprime a marca da eternidade.

E concluiu:

– Os homens da imprensa são os distribuidores do verbo, os profetas da Verdade.

 

Curso(s):

Década(s) de referência: 1950

Ano de referência: 1954

Produção do material sobre este evento: Tibério Vargas Ramos

Dados cadastrados por: Mariani Santos

Post publicado em: 31 de agosto de 2015