Fatos Históricos » Contexto Histórico da Comunicação

Sobre Contexto Histórico da Comunicação:

Jornal “a HORA” surge naquele conturbado ano de 1954

Numa articulação de empresários trabalhistas, tendo à frente Ernesto Di Primio Beck (hoje nome de galeria no centro de Porto Alegre), vinculados a João Goulart, foi planejado o lançamento de um novo jornal em Porto Alegre, a HORA (assim grafado). A redação e o parque gráfico começaram a serem montados, em um novo prédio, na Avenida São Pedro 723, bairro Navegantes-São João. O suicídio do presidente Getúlio Vargas, em 24 de agosto de 1954, em meio a série crise política, pega o projeto em andamento. Na esteira dos protestos populares que se espalharam por todo o país em meio à comoção pela morte de Vargas, o prédio do Diário de Notícias, na Praça da Alfândega, foi incendiado pelo povo enfurecido e o jornal para de circular. O novo matutino chega às bancas em 30 de novembro daquele ano, a um cruzeiro o preço de capa, com 20 páginas, para preencher o espaço vazio deixado pela publicação dos Diários Associados na capital gaúcha.

Escultor Xico Stockinger também foi ilustrador de “a HORA”

Em sua primeira edição, a grande reportagem do jornal a HORA era o incêndio da Casa de Correção, a masmorra do século 19, na ponta do Gasômetro. Os mil presos fugiram das chamas, mas não conseguiram escapar do pátio da cadeia, contidos pela Polícia de Choque e o Exército. O fogo começara no fim da tarde de domingo e se prolongara até o início da tarde de segunda-feira. Apesar de ter sido manchete do vespertino Folha da Tarde na própria segunda, fotos e ampla reportagem do incêndio garantiram um lançamento quente do novo jornal na terça. “Graças a Deus Queimou a Casa de Correção”, foi a chamada de capa, apesar da manchete ser política: a possível candidatura de Loureiro da Silva a prefeito de Porto Alegre.

A redação do jornal foi entregue a João Maia Neto, um jornalista formado em medicina, ao capitão do exército Erasmo Nascente e a Josué Guimarães, jornalista, ilustrador, diagramador e depois escritor de sucesso, autor de A Ferro e Fogo, entre outros romances. Iara de Almeida Bendati, que se aposentou como professora da Famecos, foi repórter e colunista. Mais tarde ela casou com o diagramador argentino Anibal Bendatti, também professor do Curso Jornalismo da PUCRS durante mais de 20 anos.

Livro de Lauro Schirmer conta a história de “a HORA”

O jornalista Lauro Schirmer, no livro “a HORA – Uma Revolução na Imprensa”, destaca a renovação que o veículo provocou na imprensa do Rio Grande do Sul. Em formato standard, todo diagramado, fotos coloridas, com um caderno de notícias e outro de variedades, o jornal inovou na apresentação gráfica e conteúdo. Na sua esquipe de ilustradores, figuravam os artistas plásticos Xico Stockinger e Vitório Gheno, entre outros. Foi a HORA que lançou o humorista Carlos Nobre, depois sucesso nas páginas da Folha da Tarde, Zero Hora, rádio e televisão. O jornal também descobriu o talento do chargista Sampaulo e a irreverência, charme e carisma da cronista social Gilda Marinho.

O Diário de Notícias, que voltara a circular em março 1955, continuava sendo impresso em um barracão improvisado na Rua Siqueira Campos, em uma velha rotativa Marinoni, “emprestada num gesto de grandeza do Dr. Breno Caldas” (dono na época do Correio do Povo), segundo relato do ex-diretor da Famecos Cláudio Candiota, feito ao livro de Schirmer.  Em março de 1975, o todo poderoso Assis Chateaubriand, o “Rei do Brasil”, decide comprar a HORA para que o seu jornal em Porto Alegre pudesse ser impresso no parque gráfico da Rua São Pedro.

Pintor Vitório Gheno, um dos ilustradores do jornal (Foto Vitória de Figueiredo Raupp/ RP-Famecos)

O braço-direito de Chatô, João Calmon, vem a Porto Alegre para fechar o negócio. Após assinar a compra, conta Lauro em seu livro, ele vai até os escombros do prédio dos Associados no Largo dos Medeiros, e joga a caneta na ruína, como se fosse uma vingança aos getulistas, porque o Diário iria se erguer em cima do jornal de origem trabalhista. O matutino a HORA vira vespertino, num confronto direto não mais contra o Correio do Povo, mas com a Folha da Tarde, e entra em decadência. Em 15 de março de 1962, é decidido seu fechamento.

Pouco ficou de a HORA para consulta de estudantes de jornalismo e pesquisadores de comunicação sobre um veículo importante na imprensa de Porto Alegre. A microfilmagem existente é escassa e de péssima qualidade. Não sobrou nenhum negativo ou foto ampliada. O primeiro mês foi perdido. O primeiro exemplar foi resgatado na residência do jornalista Antônio Carlos Porto, que o guardara, por ter participado da cobertura do incêndio na Casa de Correção. Todo o ano de 1959 sumiu. Restaram apenas dois exemplares dos anos de 1960 e 1962. Não tem nem o último número para precisar a data exata em que o jornal circulou pela última vez.

 

Curso(s):

Década(s) de referência: 1950

Ano de referência: 1954

Produção do material sobre este evento: Tibério vargas Ramos

Dados cadastrados por: Milena Nyland

Post publicado em: 31 de agosto de 2015