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Beatriz Dornelles, jornalismo em favor das pessoas

Beatriz Dornelles

A ditadura militar dos anos 1970 e a agitação dos colegas jornalistas, buscando dar informações importantes à população apesar da censura. Esse o cenário em que a professora Beatriz Dornelles viveu ao iniciar a trajetória acadêmico-profissional. Natural de Alegrete/RS, ela veio estudar Jornalismo na Capital, optando pela Famecos, referência em ensino de qualidade. Graduada em 1982, realizou Mestrado e Doutorado, concluindo o Pós-doutorado na Universidade Fernando Pessoa (Cidade do Porto-Portugal), em 2009, com o tema “Transição dos Jornais do Interior para a Internet”.

A experiência como aluna da Famecos foi “marcante”, pois os alunos tinham o mesmo propósito: “conseguir noticiar o que a censura não permitia e protestar contra a ditadura militar”. A professora conta que existia uma rede de solidariedade entre os colegas, desde a colaboração no ensino de redação ou diagramação até indicações para vagas no mercado de trabalho. Essa rede de apoio surgiu em virtude da ditadura e a ideia que prevalecia entre a turma era a de que “unidos somos mais fortes do que sozinhos”.

Na conciliação entre o universo acadêmico e o mercado de trabalho, Beatriz cursou pós-graduação em Metodologia de Ensino Superior (Centro de Ensino Unificado de Brasília), especializou-se em História e Imprensa (Unisinos), depois fez mestrado em Jornalismo Científico (USP), em 1989. Dez anos depois, concluiu doutorado, dedicando-se ao estudo dos jornais do interior, na USP e, em 2009, o pós-doutorado. Em mais de 30 anos como repórter, Beatriz Dornelles atuou em veículos da grande mídia, como Correio do Povo, rádios Guaíba e Gaúcha, Diário Catarinense, Correio Brasiliense, Folha de São Paulo e Zero Hora. A professora também foi a primeira presidente da Associação dos Jornais de Bairro de Porto Alegre.

A notável mudança de perfil dos profissionais de jornalismo, neste período de mais de 30 anos, ocorreu principalmente em virtude da crescente preferência pela mídia televisiva, que obteve grande espaço na cultura brasileira desde então. O espírito jornalístico em que se formou não evidenciava a vontade de “aparecer” diante dos veículos, mas sim reportar irregularidades existentes no país em estado de convulsão, onde os profissionais se organizavam para troca e busca por informações. Ou seja, o jornalista atuava como “articulador social”, tornando público o que era proibido pelo governo autoritário da época. Beatriz lamenta a ausência deste espírito hoje, pois ele colaborou muito para formação e qualificação dos profissionais daquela época.

Beatriz Dornelles credita suas conquistas no mercado de trabalho à excelente formação recebida na Famecos. Atuou em várias funções. “Exercito todas as atividades que existem para um jornalista. Fui diagramadora, revisora, editora, repórter (o que mais me ocupou) e assessora de imprensa de várias empresas.” Voltou para a Famecos como professora no dia 2 de março de 1993.

A jornalista ingressou na Universidade, quando o Programa de Pós Graduação estava em fase de desenvolvimento, em 1993. Como era uma das poucas professoras da Famecos com mestrado em Jornalismo, participou ativamente. “Na verdade, praticamente só a Universidade de São Paulo (USP) tinha pós-graduação em Comunicação no país. Teve muito esforço, especialmente da Doris Fagundes Haussen, que coordenou o processo, para implantar o curso. Desde quando começou até hoje, continuo sendo professora especificamente de Teorias do Jornalismo, com ênfase nas teorias que explicam por que as notícias são como são, minha especialidade.”

Beatriz acredita que o programa de pós-graduação é fundamental não apenas na formação acadêmica, mas também na formação do ser humano e este é o papel mais importante do PPGCOM. Foi assim que qualificou os professores do Rio Grande do Sul.

“Antes do Pós-Graduação, os jornalistas eram muito voltados para o mercado de trabalho. Isso causava uma debilidade na interpretação da sociedade, na compreensão do mundo, no combate a preconceitos, estereótipos e mitos. Ser jornalista não é apenas fazer matérias e ganhar seu dinheiro. É muito mais do que isto. A universidade, antes de tudo, tem a missão de fazer os alunos pensarem, de buscarem respostas para os embates da vida, de explicarem os fenômenos que se abatem sobre a sociedade.”

“Outro fator que contribui para a diferenciação de perfis, é o abandono das entrevistas presenciais na atualidade, ocorrendo frequentemente uma conversa via telefone ou e-mail com a fonte. A atitude torna as informações impessoais e com grande possibilidade de manipulação por parte do entrevistado. Confio muito mais na qualidade de informações ao realizar uma entrevista presencial, pois as possibilidades de contraposição, de avaliação das reações, de controle da duração da entrevista tornam-se maiores e ampliam a obtenção de informações.”

 

ENTREVISTA

Núcleo de Memória: Como foi o processo de criação do PPGCOM?
Beatriz Dornelles: F
iz parte da equipe do projeto que deu início ao programa de Mestrado do Pós-graduação. Na época, eu tinha o título de mestre, o que era raro entre os profissionais da área. E, obviamente, contava muito na criação de um Pós. No Brasil, só havia o curso na USP. Então, desde o início fui professora, embora houvesse sido contratada pelo professor João Brito de Almeida para a Graduação.

Núcleo de Memória: Quais as disciplinas ministradas no Pós?
Beatriz Dornelles:
Teorias do Jornalismo. Agora na Graduação foram várias ao longo dos anos.

Núcleo de Memória: Qual a relevância do programa na área de comunicação?
Beatriz Dornelles: É
fundamental! Foi através deles que houve a qualificação dos professores aqui do Sul. Na época, os cursos de Jornalismo eram voltados ao mercado de trabalho e não havia uma reflexão sobre o que se estava fazendo. E o Pós veio para suprir essa lacuna.

Núcleo de Memória As temáticas da pós-graduação acompanham o mercado?
Beatriz Dornelles: E
stamos fazendo esse estudo. Mas um deles tem aparecido muito: o Jornalismo On-line, ou formas de comunicação on-line ou via internet. Cada vez mais se deixa de estudar o papel, o impresso. As próprias assessorias de imprensa, que faziam o trabalho de distribuição de releases, vêm desenvolvendo o trabalho via internet. Outra questão é a interatividade. É por aí que as pesquisas estão se desenvolvendo. Portanto, estamos atentos às tendências que ocorrem no mercado.

 

Curso(s): , , ,

Década(s) de referência: 1980, 1990, 2000, 2010

Vínculo Famecos: Professor

Graduação em: Comunicação Social – Jornalismo, Famecos/PUCRS (1982).

Especialização em: Metodologia de Ensino Superior, Centro de Ensino Unificado de Brasília; História e Imprensa, Unisinos.

Mestrado em: Jornalismo Científico, USP (1989).

Doutorado em: Comunicação, USP, (2009). Pós-doutorado em Comunicação pela Universidade Fernando Pessoa/POR (2009).

Produção do material sobre esta personalidade: Memória Famecos

Edição do material: Tiberio Vargas Ramos e Luciano Klockner

Dados cadastrados por: Silvana Sandini

Post publicado em: 8 de março de 2014